Paying Attention

Paying attention is my long-term project.

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Paying Attention
Arriving in Brazil. March 9, 2010.

This week marks sixteen years since I moved from Canada to Brazil for a six-month work term. And never left.

I don't remember choosing to stay. Days accumulate; you look around and realize the decision arrived as the result of every other routine choice.

March 9, 2010: Halifax > Dulles > Guarulhos > Confins. Flight 3888. I don't speak any Portuguese yet, but already learn that oito-oito-oito has a certain cadence.

I exit arrivals and I'm outside too soon. The airport seems to lack a final set of doors. There's a barrier missing between the inside and the outside.

In Canada, you insulate. Triple-pane. Hermetically seal. The furnace guy gets there fast in mid-February. There is always another set of doors between you and the outside world.

In much of Brazil, things don't fully close. Life overflows, transborda. What's private and public blends. It gets loud. I couldn't have described it that day, but that single architectural detail felt like my new life welcoming me.

I spent almost a decade teaching English in Brazil and learned two things: English grammar and asking questions. I made a living giving conversation classes, talking about life and asking whatever seemed worth asking. Socratic questioning. Or questions without one answer.

Questioning. April 20, 2011.

When I left teaching and moved into comms and culture at tech companies, my philosophizing came with me, but wasn't always a fit. I felt comfortable with ambiguity where other people needed action items. Brazil had taught me that questions are where the life is—Quem são? Onde vivem? O que comem?—but HR needed an answer on their desk by Monday.

Yet my instinct also served me well: team members appreciated when I asked why they had taken a certain approach or used a particular method, not to catch them out or micromanage, but to genuinely cure my ignorance. I didn't plan this as a skill. It's what happens when you decide the best way to become fluent is not theoretical, but living life, on the street: you become comfortable sounding dumb and asking lots of questions.

Close to the beginning of A Hora da Estrela, Clarice Lispector writes: "So long as I have questions to which there are no answers, I shall go on writing." I still have questions. I don't have answers. I've decided that making something is how I'll go looking for them.

I'm starting this site to practice this impulse in public. To write about memory, family, home, belonging, place. To make videos that capture fragile details. I don't know what shape it will take. I know I'm afraid that my ideas aren't good enough, that I don't have the skills, that I'll expose what I lack.

But I also know that, for a few years, I lost something. Belief, say, or purpose, or the will to think your own life is worth paying attention to.

This week marks four months since leaving the São Paulo corporate job I'd been at for almost four years. Post-M&A layoff, "Your position no longer exists", you know how it is.

I forgot to consider how it could be.

So I fell in love. We took a road trip together the day I got fired. I had the time.

Somewhere between losing a job and gaining my life, I remembered to pay attention again, that ordinary things are worth recording and that the effort to notice is itself a form of love.

Paying attention is my long-term project.

Awaiting my flight to São Paulo. March 9, 2010.

Esta semana marca dezesseis anos desde que me mudei do Canadá para o Brasil para um estágio de seis meses. E nunca mais fui embora.

Não me lembro de ter escolhido ficar. Os dias se acumulam; você olha em volta e percebe que a decisão chegou como resultado de todas as suas outras escolhas rotineiras.

9 de março de 2010: Halifax > Dulles > Guarulhos > Confins. Voo 3888. Ainda não falo nada de português, mas já aprendo que oito-oito-oito tem uma certa cadência.

Saio da área de desembarque e chego do lado de fora rápido demais. O aeroporto parece não ter uma última porta. Falta uma barreira entre o lado de dentro e o lado de fora.

No Canadá, você isola. Vidro triplo. Vedação hermética. O cara do aquecedor chega rapidinho em meados de fevereiro. Sempre existe mais uma porta entre você e o mundo lá fora.

Em boa parte do Brasil, as coisas não se fecham completamente. A vida transborda. O que é privado e público se mistura. Fica barulhento. Naquele dia eu não saberia descrever isso, mas aquele único detalhe arquitetônico me pareceu como a minha nova vida me dando boas-vindas.

Passei quase uma década como professor de inglês no Brasil e aprendi duas coisas: gramática inglesa e a fazer perguntas. Pagava as contas dando aulas de conversação, falando sobre a vida e perguntando tudo o que parecesse valer a pena perguntar. Questionamento socrático. Ou perguntas sem uma resposta única.

Questionando, 20 de abril de 2011
Questionando, 20 de abril de 2011.

Quando mudei de área e fui para comunicação e cultura em empresas de tecnologia, minha tendência a filosofar foi junto, mas nem sempre encaixava. Eu me sentia confortável com a ambiguidade onde outras pessoas precisavam de itens de ação. O Brasil tinha me ensinado que é nas perguntas que está a vida—Quem são? Onde vivem? O que comem?—mas o RH precisava de uma resposta na mesa até segunda-feira.

Ainda assim, esse instinto também me serviu bem: as pessoas dos meus times valorizavam quando eu perguntava por que tinham seguido certa abordagem ou usado determinado método, não para pegá-las em erro ou microgerenciar, mas para realmente curar a minha ignorância. Nunca planejei isso como uma habilidade. É o que acontece quando você decide que a melhor forma de ficar fluente não é na teoria, mas na rua, vivendo a vida: você se acostuma a soar meio burro e a fazer um monte de perguntas.

Logo no começo de A Hora da Estrela, Clarice Lispector escreve: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever." Eu ainda tenho perguntas. Não tenho respostas. Decidi que fazer alguma coisa é como vou sair à procura delas.

Estou começando este site para praticar esse impulso em público. Para escrever sobre memória, família, casa, pertencimento, lugar. Para fazer vídeos que capturem detalhes frágeis. Não sei que forma isso vai tomar. Sei que tenho medo de que minhas ideias não sejam boas o bastante, de não ter as habilidades, de que as pessoas discordem de mim, de expor aquilo que me falta.

Mas também sei que, por alguns anos, eu perdi alguma coisa. Crença, talvez, ou propósito, ou a vontade de pensar que a sua própria vida merece atenção.

Esta semana marca quatro meses desde que saí do emprego corporativo em São Paulo em que eu estava havia quase quatro anos. Demissão pós-M&A, "sua posição não existe mais", você sabe como é.

Eu tinha esquecido de considerar como poderia ser.

Então eu me apaixonei. Pegamos a estrada juntos no dia em que fui demitido. Tinha tempo sobrando.

Em algum ponto entre perder um emprego e ganhar a minha vida de volta, eu me lembrei de prestar atenção outra vez, de que as coisas comuns valem ser registradas e de que o esforço de notar já é, por si só, uma forma de amor.

Prestar atenção é o meu projeto de longo prazo.

Esperando meu voo para São Paulo, 09 de março de 2010
Esperando meu voo para São Paulo, 09 de março de 2010.